O samba, “na realidade” e o samba, na atualidade


Para “falar” sobre o samba, precisei pedir benção a Noel Rosa, centenário “inventor” de uma ideia moderna de música popular brasileira, ele só não sabia disto em vida, pois os dois conceitos foram criados depois (o de Noel inventor e a sigla MPB). Mas, leitor/es não precisa/m parar a leitura aqui, sabemos que todo mundo já escreveu sobre Noel no último ano em função da efeméride do compositor de “Com que roupa?”, “Meu barracão”, “Cor de Cinza”, “O século do progresso” para citar uma pra lá de conhecida e três menos óbvias.

E se ninguém tivesse escrito por agora, bastaria uma lida apurada nos livros de Almirante - amigo e parceiro de Noel no “Bando dos Tangarás”- e no de João Máximo e Carlos Didier. Mas o Noel aparece aqui, pela importância clara deste e por termos escolhido para pensar o samba três perfis artísticos, eventualmente “sombreados” por este, em um sentido positivo, mas também usual: Aracy de Almeida – uma de suas cantoras-assinatura, Martinho da Vila e Martin’ália.

E aqui não discorrerei sobre a biografia dos três, vamos combinar o seguinte: em casa vocês coloquem os CD´s ou entrem em uma rádio virtual e selecionem músicas criadas por estes artistas... Noel “sombreia” um lado e os três “sombrearão” nosso textinho aqui.

José Miguel Wisnik, em sua coluna de O Globo em 05/03/2011, observa que na era pré-digital, “as coisas eram decantadas pelo tempo. Porque o seu valor e seu preço simbólico eram ditados pela capacidade de sobreviver à morte. A cultura era em grande parte um culto aos mortos”. Hoje, na era da cultura digitalizada aumentou “assustadoramente o número dos vivos”. Para ele, em síntese: a cultura dos mortos se fundamentava na escassez; a cultura dos vivos produz cada vez mais abundância — para o mal e para o bem.

E o samba nisto? O samba “na realidade” é fruto desta cultura da escassez? Ou donatário desta? Ou deixou-se enredar neste discurso, sendo beneficiário do apoio oficial – das instituições, da academia, dos pesquisadores - à sua “preservação”, por vincular-se a esta ideia de morte-tradição? Como o gênero foi pensado até aqui, e como o chamado “mundo do samba” se pensou e principalmente se vendeu, se posicionou? Ou se posiciona, na atualidade.

Se falarmos em Aracy de Almeida, guardiã de uma tradição, mas ao mesmo tempo fuçadora de novidades, gravando entre 1932 até 1980, toda a sua geração (Noel, Ary, Wilson, Geraldo, Custódio, Mario Lago, Haroldo Lobo e muitos outros) até os novos – pensando nos anos 1960 (Marcos Valle, Menescal, Billy Blanco, etc.) - e simbolicamente o Caetano de “A voz do morto”, canção cujos versos trazem a frase “eles querem salvar as glórias nacionais, coitados...” (Os Mutantes também a gravaram na época, e depois disto vez por outra ela reaparece, mas com Aracy era uma provocação? Uma auto-efeméride? Pedro Alexandre Sanches tratou bem desta hipótese em seu livro tropicalista ).

Aracy em “seu tempo” (militando dos anos 30 até quase final dos 80) não aceitou esta ideia de cultura da escassez, de algo que tem que ser preservado. Sim, fez este discurso também em algum momento, mas ao mesmo tempo ironizava cantoras de sua geração “de lá de 1500” como as irmãs Linda e Dircinha Batista, enquanto que se colocava como uma artista daquele período (anos 30, 40, Era do Rádio, etc.) mas que não tinha parado neste, estava em seus dizeres, sempre “na moda, griladona, gostava de umas transas modernas” era “pra frente”. Sua presença na TV – desde o início deste veículo no Brasil, nos anos 50 – pode ser pensada com uma dupla visão – a cultura da escassez gritando como cantora e jurada pela sua “não morte”, mas ao mesmo tempo uma compreensão de que a “onda agora era outra”. E que ela, Aracy estava nesta.

As políticas culturais sempre pensaram o samba majoritariamente com esta visão de salvaguarda, preservação, etc. – seja nos projetos que tinham mesmo que ter este viés (registros históricos, série Depoimentos MIS, tombamentos de espaços físicos e depois no registro de patrimônio imaterial, etc.), mas também nos projetos de difusão como Seis e Meia do Teatro João Caetano, Projeto Pixinguinha da Funarte e derivados. O samba era sempre celebrado como um velho senhor que recebe as homenagens de uma geração mais nova e esta por sua vez está ali “aprendendo” para depois assumir o microfone, pois tal cultura está sempre no limiar do desaparecimento... Não falamos só simbolicamente, por vezes tratava-se de um quadro literal.

Poderíamos pensar se este cenário – presente nas políticas – e reiterado no discurso dos sambistas e agentes culturais é real. Como conciliá-lo, com, por exemplo, a tese de Hermano Vianna sobre a construção política de uma identidade nacional a partir deste gênero, na Era Vargas? Tese esta que condiz com a leitura daquele período histórico e cultural feita por outros autores.

Como este mesmo samba se enquadra observando as culturas pós-modernas, na visão apresentada por Teixeira Coelho no “Dicionário Crítico de Políticas Culturais”, no qual o autor aponta algumas vertentes classificadoras: a Cultura da identidade, pensando aqui, não a ideia de identidade unificadora dos anos 1960, mas, como uma “visão de mundo” e “modo de estar no mundo que teria sido alegadamente reprimido ou sufocado”, ex. cultura gay/LGBT, afro-brasileiros, etc.; e coloca como par imediato desta primeira, a Cultura da lamentação, condição de vítima, visão de mundo que confunde a eventual discriminação cotidiana do indivíduo ou grupo a uma discriminação cultural ou estética que os oprimiria (alguém pensou no samba?); o autor ainda apresenta as Culturas da autenticidade e da reclamação que são parentes das outras, mas colocadas como culturas de afirmação, ativas (é o caso do hip-hop?) e diferem-se do consumismo e do narcisismo e finalizando com a Cultura da performance, de atitude ou de comportamento (como os novíssimos movimentos culturais que articulam mais de uma área e não aceitam uma regra clássica ou canônica); culminando ainda com Cultura do entretenimento, na qual o homem contemporâneo está buscando somente o lazer. O que não é pouco, e está bem explorado em um trabalho de Célio Turino.

Pensamos o samba como movimento e expressão muito próximos de todos estes classificadores – embora em determinados momentos, mais em torno da idéia de lamentação, mas também de autenticidade e de reclamação – de busca de um lugar, já com a consciência de sua importância no processo. O que aparentemente pode parecer contraditório, para nós não é, uma vez que percebemos o gênero como múltiplo. Este é que ainda não se percebeu assim. Pensamos na Aracy guardiã (identidade, lamentação) mas também prafrentex (autenticidade, reclamação, performance) e na TV (entretenimento). E aqui seria só um agendamento para continuarmos o debate em outro momento.

E aqui, agora o leitor já pode dar o enter ou o play em Martinho da Vila, que sem sombra de dúvidas é um “portador” da tradição, mas será ainda da escassez “wisnikiana”? Martinho tem uma carreira identificada com uma agremiação carnavalesca, além de uma intensa pesquisa nas culturas negras do interior do Rio de Janeiro (jongos, calangos, caxambus, vindos de sua memória cultural de Duas Barras/RJ) e na África (Angola, Moçambique, os ramos lusófono e banto, principalmente). É a cultura da identidade, mas também da lamentação, da autenticidade, ou o compositor de Vila Isabel, da Boca do Mato, do interior do RJ, não é um “enquadrável” à medida que sempre apontou para adiante? Mas é inegável que em todo o panteão de sambistas mais consagrados, no mercado e artisticamente, Martinho é uma referência política, na tradição, mesmo pelo fato de ter sido criado neste caldo de cultura (o preservarcionismo). Par dele, em nossa perspectiva, só percebemos, talvez Nei Lopes, com vasta produção artística e acadêmica.

Entre os muitos filhos de Martinho – quase todos vinculados ao universo cultural, a cantora Mart’nália, é a que mais se projetou, e herda esta tradição, mas trabalha com a ideia da abundância, de referências, valores, parceiros e produtores do universo da MPB ou do Pop e até do Rock!. Ao que parece, a cantora não trabalha com esta ideia fixa de prestar tributo às gerações tradicionais – como fazem os neo-sambistas da Lapa atual, - definição de Tárik de Souza - pois veio destas gerações (Martinho e sua mãe Anália – já falecida, também cantora/sambista, as reuniões em casa de Donga/Lygia Santos, o Clube do Samba, o contato com João Nogueira, Dona Ivone Lara, Roberto Ribeiro ...). Isto em Martin’ália, nos parece já resolvido, e daí atreve-se, e pode apontar a sua obra para onde quiser. Este “discurso” já estaria dado pela sua legitimidade, então a artista “pula esta parte”, pois não precisa pedir licença ao samba, ela é parte dele. O que não necessariamente vigora na Lapa carioca, onde de certa forma inventou-se ou recriou-se uma tradição, em outro tema para se pensar.

A cantora – voltando a Teixeira Coelho - vincula-se a Cultura da autenticidade, da performance, mas seria também a Cultura do entretenimento puro? E este seria uma liberdade – mesmo que liberal, mas também um sinal dos tempos? Vivemos no Brasil, um processo de democracia consolidada, ascensão social nas chamadas classes C e D, mesmo que ainda tenhamos muito o que fazer. O próprio “mundo do samba” – “egresso” destas classes emergentes - encontra-se hoje muito favorecido pelo quadro social em questão, assim como é parte desta ascensão, pois esta não é só econômica, mas por outro lado, política, simbólica e cultural.

Hoje temos uma profusão de produção do samba: na sempre citada e contraditória Lapa/RJ; em SP – onde muitas vezes o “tradicional” carioca tem espaço de mercado (citamos dois exemplos bem distintos: a retomada de um aspecto do samba – as rodas acústicas – com o grupo Terreiro Grande e outros e a carreira artística e política da carioquíssima Lecy Brandão); gravadoras especializadas ou com muita prioridade no gênero, além de um maior acesso à produção para os novos, mas nem tanto à difusão (se a pensarmos com o olhar do mercado de outrora).

E por outro lado algumas (poucas) carreiras com muito sucesso comercial – e coerência artística - como as de Zeca Pagodinho, Alcione, Fundo de Quintal, os citados Martinho e Martin’ália, Paulinho da Viola, Beth Carvalho e Arlindo Cruz que impulsionam outras carreiras, seja de compositores da “velha-guarda” ou tradicionais, possibilitando que músicos de suas bandas lancem CDs ou participem de faixas em seus projetos.). Temos ainda um namoro dos medalhões com o gênero – o que não é de hoje – basta passear pela discografia dos quatro baianos – Caetano, Gal, Gil e Bethania -, Chico Buarque, Nana Caymmi, Edu Lobo e seus iguais, assim como alguns artistas de um universo identificado como “pop”, que dialogam com o samba: Sandra de Sá, Luiz Melodia, Seu Jorge, Maria Rita, Zélia Duncan, Roberta Sá, Pedro Luís, Rita Ribeiro...

E afinal o que queremos com esta provocação em forma de texto? Para limpar o terreno, mesmo no fim deste, afirmamos que Noel não entrou lá em cima no prólogo e trouxemos Aracy - A Dama do Encantado e a “Família” da Vila, à toa. Apoiamos, reivindicamos e somos da “tradição” do samba, achamos, apenas que seria oportuna uma mudança de local e de discurso nesta mesma tradição. Percebemos hoje, um outro momento, descrito neste texto e observado em nossa prática. Mas afirmamos que ainda cabem ações – nem só as públicas, mas também do deus atual - o “mercado”- em torno de nichos tradicionais representados pelo que “resta de autêntico” nas velhas-guardas, na seara dos compositores, em movimentos “regionais”como por exemplo na Cidade da Bahia e no samba de roda do Recôncavo Baiano, e mesmo na “periferia” deste mesmo quadro tão promissor e vasto do mundo do samba. Um exemplo deste último caso: temos este ano, o centenário de um compositor importante de Portela, Chico Santana – e que pode passar oficialmente em branco, assim como carreiras inteiras o foram (como descrito em um samba que gostamos muito, “Resgate” de Mauro Duarte e Paulo Cesar Pinheiro).

PS: Aqui, enquanto escrevemos, ouvimos para além dos citados: Mariene de Castro, D. Edith do Prato e Vozes da Purificação, Margareth Menezes e Roque Ferreira – pelo “lado” baiano, e evidentemente: Áurea Martins e Cristina Buarque – essas são para tocar no rádio.

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Sugestões de leitura:

MÁXIMO, João. DIDIER, Carlos. Noel Rosa – Uma biografia. Brasília: Ed. UNB, 1990.
VIANNA, Hermano. O mistério do samba. Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 1999.
COELHO, Teixeira. Dicionário crítico de política cultural. São Paulo: Ed. Iluminuras, 2004.
ALMIRANTE. No Tempo de Noel Rosa. Rio de Janeiro: Ed. Livraria Francisco Alves, 1977.
WISNIK, José Miguel. Coluna semanal (sábados) no jornal “O Globo”.
Souza, Tárik de. A MPB entre a arte e trono do mercado in: CULT, nº 151. São Paulo, 0utubro, Ed. Bregantini, outubro, 2010.
SANCHES, Pedro Alexandre. Tropicalismo – Decadência Bonita do Samba. São Paulo: Ed. Boitempo, 2000.
TURINO, Célio. Na trilha de Macunaíma: ócio e trabalho na cidade. São Paulo: SENAC São Paulo: SESC São Paulo, 2005. OPMO


Flavio Aniceto é produtor cultural e cientista social. E-mail: flavioaniceto@gmail.com
Site: cpcaracydealmeida.blogspot.com

Rafael Paschoal é ilustrador, cartunista e designer gráfico, mas nas horas vagas também gosta de escrever sobre as idiossincrasias do subúrbio carioca. Portelense de coração, também arrasta uma asa para a Imperatriz Leopoldinense e a outra para Mocidade Independente de Padre Miguel. Desde muito pequeno, sempre está com um lápis na mão: seja para desenhar, escrever ou simplesmente rascunhar idéias em seu sketchbook." www.designup.pro.br/pro/rafaelpaschoal


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